Concentração dispersa

costada na articulação do ônibus, uma moça comia um sanduíche de pão integral com presunto e queijo, percorrendo o ambiente com os olhos, sem rumo.
- Ainda não cheguei no metrô.
A frase, ao telefone - única que pude compreender - revelou a voz doce, atenta e distante como seu olhar.
Olhos de um azul quase marinho, que puxa o verde e sente o cinza. Olhos cor de tudo e nada, que, atrás da ansiedade, escondem uma doçura pensativa - ou o contrário.
Uma piranha rosada nos cabelos cor-de-feno-ensolarado; sandália rasteira; pequenos brincos cromados com pêndulos roxos em esferas.
Desci do ônibus.
A moça voltou a ser apenas mais uma vida isolada da minha, mas fatos se tornarem em fatos narrados e guardados permitem que um transeunte se eternize.

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