Entendendo a relação entre oralidade e escrita para escrever bons textos

A escrita surgiu em diferentes sociedades entre 5.500 a.C. e 600 a.C., respondendo à necessidade de registrar operações primitivas de comércio e acontecimentos. Com o decorrer do tempo, passou a servir a vários outros propósitos – como a arte e o ensino – e desenvolveu-se como diferentes sistemas em diversas regiões do mundo. A escrita alfabética é um desses sistemas e se espalhou pelo ocidente, e é através dela que representamos a língua portuguesa, utilizando símbolos que marcam não apenas os sons (letras) e a entonação (acentuação), mas também a organização e a intenção das frases (pontuação).
Mas as línguas que hoje são escritas nasceram na oralidade e, para produzir bons textos, faz-se necessário compreender as distinções entre as modalidades oral e escrita da língua, identificar suas relações e perceber seu contínuo. 
Da mesma forma que a escrita surgiu representando conceitos já presentes na linguagem oral, o indivíduo adquire a oralidade primeiro, no início da infância, e, quando começa a frequentar a escola, adquire a escrita. Mas, apesar dessa relação de anterioridade da linguagem oral em relação à escrita, é necessário perceber que, através de seu desenvolvimento, a escrita passou a ser antes uma modalidade com propriedades específicas do que uma mera representação da linguagem oral. 
A primeira particularidade da oralidade é que, ao falar, uma pessoa não utiliza apenas palavras, mas também entonação, pausas, voz baixa ou alta, expressões faciais e gestos. Isso cria sentidos singulares. Já na escrita, não há quaisquer desses recursos além das palavras, então é necessário ser preciso em toda a construção textual, procurando as melhores palavras, utilizando apropriadamente a gramática e encadeando as ideias de maneira lógica. Além disso, a fala está inserida em um contexto em que o texto escrito muitas vezes não está, portanto ele pede um esforço de contextualização, com maiores informações e detalhes, dentro dos limites da concisão. Isso é possível utilizando, por exemplo, o “leitor imaginário”.
Ao escrever, escreve-se para alguém ler, assim é possível antecipar perguntas e comentários sobre as informações expostas no texto e incluir as respectivas respostas. Esse é o “leitor imaginário”. Na oralidade, isso não é necessário, pois temos um interlocutor real. 
Outra distinção entre as modalidades é o planejamento. Seja fazendo um esquema mental do texto antecipadamente ou escrevendo primeiro para depois fazer os ajustes necessários, a escrita é um ato comunicativo planejado, enquanto a oralidade é espontânea. O conhecimento dessa diferença leva a um melhor planejamento dos textos, pois é possível pensar em todas as perguntas que se pretende responder e de que forma. É possível desenvolver uma estrutura e um desenvolvimento que visem efetivar a compreensão da mensagem.
O próximo contraste é que a escrita é integrada e a linguagem oral é fragmentária. Isso significa que, na fala, apresenta-se ideias de forma menos concatenada do que em um texto escrito. Começa-se com uma ideia, faz-se desvios voltando depois, ou mesmo abandonando o assunto e seguindo para outro. Porém, devido a todos os recursos e características da oralidade, não se perde a eficácia. Já no texto escrito, é necessário integrar todas as ideias e seguir uma unidade. As partes do texto devem seguir uma linha de raciocínio e estar interligadas por elementos coesivos, seguindo um percurso de ideias que levem a uma compreensão final.
Para concluir o tema das distinções, faz-se necessário pensar sobre as marcas de oralidade nos gêneros textuais.
Os gêneros textuais são formas relativamente estáveis pelas quais nos comunicamos. Eles possuem características próprias que nos guiam no seu uso e que têm relação com a finalidade do texto. No que tange o contínuo entre oralidade e gêneros escritos, há “marcas de oralidade”, que são gírias, coloquialismos (linguagem informal), regionalismos (que são representados, por exemplo, nas falas de personagens em romances), interação com o leitor (vocativos, como “você”; perguntas retóricas; linguagem fática, como “né?”, “tá?” etc.). A presença dessas marcas depende de fatores como formalidade e intenção. É necessário ter clareza do que se pretende comunicar, para quem se pretende comunicar e em que espaços o texto irá circular para imprimir oralidade ou não no texto.
Por exemplo, uma dissertação de mestrado jamais deve conter oralidade, a menos que estritamente necessário para a mensagem e respeitando o que a norma culta diz sobre esses casos. Já em um poema, o autor tem grande liberdade artística para retratar as emoções. E, entre esses dois extremos, há uma grande variedade de gêneros que utilizarão uma ou outra marca de oralidade, de uma ou outra forma, ou não.
Porém há também os gêneros falados que passam por um planejamento (marca da escrita), seja ele redigido ou não. É o caso de gêneros formais como palestra, aula expositiva e seminário, mas também existe na arte, nas falas de personagens em peças de teatro e roteiros de cinema.
Dessa forma, mesmo compreendendo o que contrasta as duas modalidades da língua, é preciso notar que entre elas há um contínuo, seja no surgimento da escrita enquanto representação de conceitos da oralidade, seja nos meandros das misturas entre as duas. Compreendendo essa relação em que há continuidades e descontinuidades, é possível aplicar a consciência da escrita em versatilidade e competência textual. Porém, para transformar essa introdução ao tema em textos de qualidade, é preciso nunca abandonar o estudo nas suas variadas faces da escrita, praticar e ler muito.

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