A menina do vestido rosa com bolinhas azuis

Veja lá, a doce menina de cabelos encaracolados, em seu vestido rosa com as amigas bolinhas azuis.
Veja-a brincando, saltando de balaústre a balaústre, como se nem mesmo o trepidar ameaçador do ônibus a impedisse de voar. Pois, sim, ela voa! Voa dentro de sua imaginação de menina, em que os saltos mais curtos driblam abismos.
Repara, agora, na avó, com seu pseudossorriso e este par de olhos verde-oliva, dos quais emanam mágoas indiferentes, que se misturam aos conselhos de sua face molhada pela chuva que cai lá fora.
A menina salta, enquanto a senhora observa as unhas. A menina canta, enquanto a senhora confere as compras na sacola. A menina sorri para si, enquanto a avó aperta o sinal de parada.
- Para, menina! Parece que tá co'a peste! – impera a avó.
Proferidas as palavras de amor, uma criança volta ao mundo real, do qual sairá com cada vez menos freqüência ao longo dos anos que virão até a abreviatura de sua existência.
E a senhora? A avó. Não sei. Seus olhos não são tão transparentes. Apenas a vejo descer do ônibus e partir.

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